Sonja Dakić mora em uma casa no subúrbio de Belgrado onde a coleta de lixo passa somente duas vezes por semana. Às vezes, com a chuva ou quando há feriados, a rotina cai para uma coleta semanal. Ela e o marido sempre tentaram levar um estilo de vida sustentável, separando o lixo e fazendo compostagem, mas o status de casa eco-friendly mudou há sete anos, quando veio a primeira filha. A cada semana, a pilha de fraldas usadas se acumulavam e Sonja não conseguia acreditar em como “uma pessoa tão pequena conseguia causar tanto impacto”. A rotina de comprar fraldas e contribuir com o lixo não era o que ela buscava, então, descobriu nas fraldas de pano reutilizáveis a alternativa perfeita.

“O problema foi encontrar elas por aqui. Encontrava na internet mas não havia entrega na Sérvia. Tive que movimentar toda minha rede de contatos para conseguir algumas fraldas, aí minha filha logo cresceu além das fraldas e pensei: e agora?”, conta. A busca foi incessante, até que o marido de Sonja sugeriu fabricá-las localmente, já que o país tem um histórico na indústria têxtil.

Apesar de garantir que não tinha espírito empreendedor, Sonja resolveu colocar a mão na massa: em parceria com uma amiga que tinha uma loja de produtos para bebês, começou a produzir as fraldas da Daj Daj com economias próprias e de sua sócia, Violeta Markovic.

“A melhor coisa para nós é que não sabíamos o que vinha pela frente, assim tomamos um passo de cada vez. Se soubéssemos talvez a gente tivesse desistido”

A dupla comprou as máquinas e os materiais e na hora de encontrar a mão de obra, a melhor opção foi contar com a experiência de mulheres acima de 50 anos que trabalhavam em fábricas têxteis da época da Iugoslávia — história comum, que comprovamos aqui e aqui. “Elas buscavam trabalho, não conseguiam se colocar no mercado e tinham experiência, eram exatamente de quem precisávamos”, comemora. Ela conta do choque dessas costureiras quando são consultadas, pois na época iugoslava, o processo de produção para elas não abria brechas para opiniões. “No começo elas se espantavam, mas elas são muito importantes para nós. Temos que respeitar o conhecimento delas pois são quem fazem nosso produto, não tinha sentido a gente não consultar quem torna nossas ideias 3D”, explica. Hoje são três costureiras e o plano é de contratar mais duas nos próximos meses.

Sonja conta que, apesar de empregar um grupo de mulheres em situação vulnerável e ter um forte apelo ecológico, foi só no meio da jornada que descobriu que o que estavam fazendo poderia se enquadrar como empreendedorismo social. “Tiveram que nos contar”, diverte-se. A marca foi crescendo, conseguiu negociar uma condição interessante de empréstimo com o Erste Bank — banco austríaco que demonstra interesse em iniciativas inovadoras e sociais da região dos Bálcãs — e Sonja participou do TEDx Viena no ano passado.

Para quem assume que não tinha tino de empresária no começo, Sonja leva a Daj Daj muito bem: o empréstimo está quase quitado e a empresa já atingiu o ponto de equilíbrio. Agora, o trabalho é para aumentar a escala de produção e ampliar o mercado. As sócias estão em um programa do Impact Hub para entrar no mercado da Europa Central, o foco do momento é expandir para a Alemanha.  

Descartável vs. reutilizável

Mas vale mesmo à pena lavar as fraldas? Gastar mais água e mais energia não dá no mesmo que produzir o lixo? Não necessariamente. Uma pesquisa de 2010 da Associação Nacional de Conservação da Natureza, Quercos, de Portugal garante que o gasto de água não é significamente maior quando se escolhe por fraldas reutilizáveis. A projeção média é que dois anos de uso das fraldas descartáveis — tempo médio em que o bebê precisa delas — geram uma tonelada de lixo.

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No caso da Daj Daj, Sonja garante que quem opta pelas fraldas de algodão, ainda faz economia. “Nossa conta é que vinte fraldas são suficientes para a criança usar durante dois anos. Elas são ajustáveis, então acompanham o crescimento do bebê. E se lavadas da maneira correta, elas podem ser usadas por duas ou três crianças”, ensina. Há ainda a ideia de coletar doações de fraldas já usadas e dar a familias de baixa renda, mas não há uma taxa de doações suficientes para fazer o projeto funcionar.

Ela destaca que, dentro da empresa, ainda há espaço para explicar às novas mães as vantagens e como usar as fraldas e há um trabalho de apoio a mães. Grupo de suporte à amamentação e questões ligadas à licença maternidade estão na pauta. “No final, é muito bom o feedback, as fraldas não são só ecológicas, mas ajudam as crianças de várias formas. Tem mãe que chega emocionada aqui, só para agradecer que finalmente encontrou fraldas que não dão alergia nos filhos, por exemplo”, relembra.


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